O jovem de 26 anos vítima de violação sexual mediante fraude (art. 215, caput do Código Penal), cometida em caráter continuado (art. 71), crime que levou à condenação de um padre pela Justiça de Serra Negra, disse que a condenação é “motivo de alívio e demonstra que é possível romper o silêncio e buscar justiça”.
O padre foi condenado a seis anos de prisão, em regime semiaberto. Na ocasião dos fatos, a vítima tinha 14 anos. O nome do padre não pode ser divulgado porque o processo está sob segredo de Justiça.
Segundo a denúncia apresentada pelo promotor de Justiça Gustavo Roberto Chaim Pozzebon, os abusos ocorreram de forma continuada entre 2014 e 2016, nas cidades de Serra Negra e Guarulhos. O sacerdote teria se aproximado do jovem ao convidá-lo para ser coroinha e, percebendo seu interesse pela vida religiosa, passou a estabelecer uma relação de confiança e dependência emocional, oferecendo presentes e convites frequentes para atividades fora do convívio familiar.
De acordo com a Promotoria, essa proximidade permitiu a prática reiterada de atos libidinosos em ambientes privados, como a casa paroquial e a residência de familiares. A sentença destacou que as condutas eram realizadas de forma velada, com estratégias para evitar suspeitas e dificultar a reação da vítima.
Embora não apague as marcas deixadas, afirmou o jovem, a condenação representa um passo fundamental no processo de reparação e de reconhecimento da verdade. O jovem relatou que enfrentou inúmeras tentativas de deslegitimação. “Muitas dessas ações se deram por meio das redes sociais, com ataques diretos e indiretos, o que intensificou ainda mais o sofrimento vivido por mim e por minha família”, afirmou.
O jovem diz que compreende os ataques por considerar que muitos partem de pessoas que não têm compreensão da gravidade da situação. Ele ressalta a dificuldade de entendimento do abuso pela própria vítima.
“É importante dizer que apenas quem já passou por uma situação de abuso compreende o quanto é difícil o processo de tomada de consciência e de aceitação do que foi vivido — especialmente quando a violência é cometida por alguém em quem se confiava ou que ocupava uma posição de autoridade. Romper o silêncio, nesses casos, exige um profundo enfrentamento interno e externo”, desabafou.
O jovem lamentou que o padre ainda não tenha sido afastado de suas funções. “Tal postura evidencia uma grave omissão institucional e transmite à sociedade a mensagem de que a preservação da estrutura ainda se sobrepõe ao compromisso com as vítimas”, avalia.
O jovem disse ainda que a decisão tem significado coletivo, “pois reafirma que nenhuma instituição ou autoridade está acima da lei e que casos de abuso, especialmente contra crianças e adolescentes, devem ser tratados com a máxima seriedade e responsabilidade”.
Padre nega acusações
Seu advogado informou que recorrerá da decisão. “Agora em segunda instância, [a Justiça] vai reanalisar as provas que certamente conduzirão à reforma da sentença e sua absolvição”, declarou.
O bispo diocesano de Amparo, Dom Luiz Gonzaga Fechio, afirmou, também em nota, que a investigação canônica apresentou conclusão diversa da decisão judicial, e que medidas pastorais poderão ser adotadas oportunamente. A nota reforça o compromisso da Igreja com a transparência, a ética e a proteção da dignidade humana, pedindo orações por todos os envolvidos.

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