Os crimes sexuais são cometidos em segredo, “entre quatro paredes”, sem testemunhas oculares ou registros, o que torna a palavra da vítima o meio central de prova, desde que coerente, consistente, firme e com riqueza de detalhes, além de harmonizada com outros elementos de provas como laudos periciais, psicológicos ou relatos de terceiros. Esse é o entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo o qual, em crimes contra a dignidade sexual, o depoimento da vítima possui especial relevância probatória.
O Viva! Serra Negra entrevistou a vítima da denúncia apresentada pelo promotor de Justiça Gustavo Roberto Chaim Pozzebon à Justiça de Serra Negra, que resultou na condenação de um padre por violação sexual mediante fraude (art. 215, caput do Código Penal), cometida em caráter continuado (art. 71).
Respeitando o processo em sigilo de segredo, o Viva! Serra Negra publica alguns trechos da entrevista, na qual a vítima conta como conheceu o padre em 2014, aos 14 anos de idade, como se iniciaram os laços de dependência emocional, psicológica e de gratidão, por meio de presentes, jantares e um tratamento diferenciado, e como se deram os atos considerados libidinosos pela Justiça.
O jovem relata que como todo adolescente, estava distante um pouco da igreja, mas em 2014 foi convidado para ajudar a dar início a um novo grupo de jovens na Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Serra Negra. Havia um novo padre na paróquia que queria iniciar um trabalho com a juventude da cidade.
Logo no início daquele ano, participou de uma reunião com o padre, tendo seu primeiro contato com ele. “Fiquei animado pois havia simpatizado com o padre, mesmo porque, além das missas, nunca havia tido contato com algum padre antes”, afirmou.
Convite para ser acólito
Cerca de dois meses depois do primeiro encontro, numa missa, durante a comunhão, o padre disse que precisava falar com o jovem e no fim da missa convidou-o para ser acólito. Dias depois, o jovem começou a ajudar como acólito nas missas e em seguida foi convidado pelo padre para acompanha-lo também nas missas em dias da semana nas diversas comunidades da cidade. “Eu sempre ia de carona com ele, o encontrava em frente à casa paroquial, ou às vezes ele passava para me buscar em casa”, relatou.
Logo depois de começar sua atividade como acólito, o jovem foi convidado pelo padre, após a missa em uma das comunidades, para comer esfirra com um pessoal de fora que o estava visitando por ocasião de seu aniversário.
Dias depois, o jovem teve uma conversa com o padre, na qual revelou que andava refletindo sobre a possibilidade se tornar padre. Mas ainda tinha muitas dúvidas sobre o assunto. Diante do exposto, o padre disse ao jovem que deveria acompanhar de perto seu trabalho e ajuda-lo na paróquia.
“A partir daí nossa relação passou a ser diferente, como se ele confiasse mais em mim.” O jovem relatou que o padre sempre fez parecer que a relação do vocacionado com ele era de algum privilégio, uma vez que estava mais próximo do padre e que podia acompanha-lo em todo lugar.
Presentes e jantares
O jovem disse que com essa aproximação, que parecia ocorrer de forma natural, passou a compreender sua relação com o padre como a de um filho com um pai. Como mantinha um relacionamento mais distante com o pai biológico, definido como uma pessoa mais fechada e menos carinhosa, o jovem avalia ter encontrado no padre um certo afeto paterno.
Além da aproximação, o padre passou a presentear o jovem inicialmente com presentes que alegava ter ganhado de outras pessoas, mas que não usaria, e depois com outros objetos mais caros, como relógio e celular.
“Ele também sempre me levava a restaurantes e lugares que eu nunca frequentei ou frequentaria com minha família, que não tinha condições financeiras para isso”, relatou. O então adolescente foi apresentado à família do padre, que passou a trata-lo como da família. “Com isso, no meu inconsciente, passei a achar que tinha dever de gratidão para com ele e a considerar essa relação mais natural do que era, o que propiciou um ambiente perfeito para o abuso sexual e psicológico”, salientou.
O jovem passou a frequentar a casa paroquial depois das missas e reuniões à noite. O padre o convidava para jantar e depois assistir televisão, sentados no sofá da sala. “Os abusos de conotação sexual passaram a acontecer nos momentos em que estávamos sozinhos”, revelou.
Abraços na Casa Paroquial
Respeitando o segredo do processo, a reportagem do Viva! Serra Negra vai se limitar a relatar apenas a primeira situação em que o adolescente lembra ter percebido abuso, ainda em 2014. O padre enviou uma mensagem ao jovem perguntando se ele estava livre e se poderia comer alguma coisa com ele na casa paroquial. Naquele dia, o padre disse ter participado de uma reunião estressante. Eles compraram esfirra e foram para a casa paroquial.
Já ali, o padre tirou a batina e vestiu shorts, camiseta e chinelo. Depois de comer, os dois sentaram no sofá para assistir televisão. O padre, relata o jovem, disse que estava precisando de carinho.
“Ele pegou uma almofada colocou no meu colo e se deitou com a cabeça no meu colo para fazer cafuné nele”, relatou. “Depois ele pediu para trocar de posição com ele. Lembro que deitei no colo dele e senti que ele estava excitado”. O jovem ficou confuso, pediu para ir ao banheiro, ao mesmo tempo que, assustado, se sentia culpado
Na hora de se despedir, o jovem lembra que o padre lhe deu um abraço longo e sentiu que ele estava novamente excitado. A partir desse dia, o jovem começou a perceber que em muitas vezes o padre o abraçava demoradamente sempre quando estavam sozinhos e percebia que ele ficava excitado nessas ocasiões.
Com o tempo, o jovem passou a frequentar o quarto do padre, onde assistiam a filmes ou séries de televisão deitados em sua cama. Enquanto estavam deitados, o padre pedia para ficar abraçado e o jovem disse que por diversas vezes também percebia que o padre estava excitado. Algumas vezes o jovem era abraçado de forma que seus corpos estavam encostados e ele podia sentir a excitação do padre.
Distanciamento e psicoterapia
Essa relação se manteve entre o padre e o jovem entre os anos de 2014 e 2016. Em 2017, quando se iniciou um processo de distanciamento, o jovem disse que começou a tomar consciência do que havia ocorrido e de que a relação havia sido abusiva. Mas só em 2018 iniciou um processo de independência emocional do réu.
O jovem relata que por diversas vezes, já com mais de 18 anos, e depois de ter tomado consciência da gravidade da situação, desejou denunciar os abusos, mas tinha receio, como seminarista, de retaliações e punições. Só a partir de 2021, inclusive com ajuda da psicoterapia, começou a pelo menos a falar sobre o assunto e apenas em 2025 decidiu por fazer a denúncia ao Ministério Público.
Padre mantém atividades
O padre, apesar de condenado, mantém suas atividades ministeriais. Em sua missa de domingo, 3 de maio, em Amparo, utilizou a homilia para se manifestar sobre as acusações. Afirmou que se mantém com fé e confiança em Deus, na verdade e na Justiça e que se manteve em silêncio por prudência, mas que se mantém firme.

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