| Silvia Gonçalves: é necessário profissionalizar o atendimento às vítimas nas delegacias |
Falta capacitação e profissionais para atender as mulheres vítimas de violência doméstica, além do que a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), que funciona dentro da Delegacia de Polícia de Serra Negra, tem pouca visibilidade e a população em geral desconhece a sua existência, embora ela tenha sido inaugurada em dezembro de 1992.
A advogada Silvia Lopes Gonçalves, que por 32 anos foi escrivã de Polícia da Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher de Serra Negra, lembra que quando assumiu o cargo, em abril de 1992, a Delegacia de Polícia da cidade contava com três delegados para uma estimativa de 23 mil habitantes.
“Hoje nós temos um delegado para atender uma população de 30 mil habitantes”, comparou a ex-escrivã durante do evento “Serra Negra discute a violência doméstica”, realizado, no dia 14 de março, na Câmara Municipal de Serra Negra e promovido pela Casa da Cultura Dalmo Dallari, Viva! Serra Negra e PT de Serra Negra.
Silvia lembrou que a cidade, por ser turística e produtora de café, tem uma população flutuante significativa para ser atendida, além de seus moradores. “Temos de absorver as ocorrências dos turistas que vêm para cá. Recebemos casais visitantes que brigam nos hotéis”, relatou.
A ex-escrivã ressaltou também que o município recebe trabalhadores rurais de outras regiões do país, que vêm para Serra Negra em busca de trabalho no período de colheita de café, entre os meses de junho e outubro em especial. Muitos vêm com toda a família.
Silvia salientou a necessidade de mais recursos dos governos e do município para essas áreas, o que também foi observado pela deputada federal do PT, Juliana Cardoso, que enfatizou a necessidade de incluir o combate à violência doméstica nos orçamentos do município, Estado e União.
Falta de recursos, no entanto, é só uma das dificuldades no atendimento à vítima de violência doméstica. O profissional que está na ponta e que recebe as denúncias precisa estar bem preparado e enfrentar algumas situações decorrentes da cultura machista e misógina, que está nas entranhas não só da sociedade, mas também das instituições.
Silvia contou diversos casos estarrecedores, como o de ter sido acusada até de sugerir o divórcio a uma mulher que já havia registrado vários Boletins de Ocorrência contra o marido, por entre outras coisas ter sido obrigada a fazer uso de cocaína. O marido procurou o Ministério Público para denunciar a ex-escrivã.
Os casos relatados denotam não só a submissão das vítimas como o sentimento de culpa na hora de fazer a denúncia, o que acaba levando à desistência do prosseguimento do processo. Em um dos casos citados pela ex-escrivã, uma mulher foi obrigada a passar a noite em claro sentada no sofá da sala. “Quando ela dormia, ele jogava na cabeça dela um canecão de água.”
Esse tipo de agressão é só o início da escala da violência que começa na agressão psicológica e pode terminar no feminicídio. Cansada das agressões do marido, que tinha arma em casa, uma vítima chegou a contar com a ajuda dos irmãos para fazer a denúncia. “Na hora de decidir se fazia ou não, a mulher me chamou em particular e perguntou: quem vai tirar o leite das vacas amanhã?”. Bateu o sentimento de culpa.
A ex-escrivã salientou a necessidade de profissionalização, em especial no atendimento quando a mulher chega na delegacia. É necessária uma conversa acolhedora, afetuosa e longa para extrair todos os detalhes do relato da vítima porque é neles, observou Silvia, que se encontram as provas dos crimes físicos e psicológicos que não deixam marcas.
Além de maior visibilidade para a Delegacia da Mulher, Silvia sugeriu que a cidade volte a divulgar de forma intensa as informações necessárias para combater a violência doméstica e usar até as rádios locais para divulgar as informações necessárias, como era feito há mais de 30 anos quando assumiu, muito jovem, com pouco mais de 20 anos de idade, a Delegacia da Defesa da Mulher de Serra Negra.
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Salete Silva é jornalista profissional diplomada (ex-Estadão e Gazeta Mercantil) e editora do Viva! Serra Negra
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