| Roseli Araújo (com o microfone): "Liguei para o 180, fiz a denúncia, mas não obtive resposta" |
Roseli Araújo, mãe de Beatriz Araújo, a Bia, vítima de feminicídio em 2025, quando descobriu, no início do ano passado, depois de 14 anos de casamento, que a filha sofria agressões do marido havia muito tempo e que a situação estava insustentável, enfrentou uma via-sacra para conseguir pelo menos fazer a denúncia. A desinformação sobre os serviços oferecidos na cidade e a lentidão dos órgãos policiais dificultaram sua luta para salvar a vida da filha.
“Foram apresentados aqui tantos projetos para ajudar as mulheres, como os do CREAS e os do CRES, mas a gente não tem essa informação”, lamentou. Roseli disse que chorou o tempo inteiro durante o evento “Serra Negra discute a violência doméstica”, realizado no dia 14 de março, na Câmara Municipal de Serra Negra, pela Casa da Cultura Dalmo Dallari, Viva! Serra Negra e PT Serra Negra.
“Estou chorando desde que isso aqui começou”, afirmou, salientando que lembrou da filha todo o momento, em cada apresentação e informações dos palestrantes. Roseli relatou que só tomou conhecimento da violência doméstica sofrida por Beatriz por meio do neto de oito anos que agora sofre as consequências de uma vida sem a mãe e com muitos traumas.
“Meu neto, precisou nascer e crescer para me contar que a mãe era agredida e ameaçada”, contou. A primeira providência de Roseli foi ligar para o 180 e registrar a denúncia. “Lá a gente sabe que não precisa ser a pessoa que está sofrendo a agressão”, explicou. “Fiz a denúncia, mas não obtive resposta”, acrescentou.
As informações fornecidas eram desencontradas. “Primeiro me disseram que o processo estava na delegacia. Liguei na delegacia e ninguém sabia de nada sobre a denúncia”, disse. Na delegacia recebeu depois a informação de que a denúncia havia sido enviada para a promotoria. “A moça que atendeu perguntou até se o agressor era uma pessoa influente, porque ninguém viu o processo e foi direto para a promotoria”, relatou.
A advogada contratada na época pela mãe para fazer o divórcio da filha procurou a promotoria, onde recebeu a informação de que não havia ali nenhum processo. “Nesse tempo, perdemos 40 dias”, lamentou. Se tivesse as informações e acesso aos serviços do CREAS e CRES, Roseli disse que também poderia ter agilizado os depoimentos.
Traumatizada pelas agressões, Beatriz estava emocionalmente impossibilitada de relatar os 14 anos de agressões à advogada. “Chegava numa altura e começava a chorar e não saía mais nada”, explicou. Foram necessárias três sessões de terapia de emergência para a filha conseguir concluir o relato à advogada. Beatriz conseguiu medida protetiva, mas desapareceu em abril e seu corpo só foi encontrado quatro meses depois no local indicado pelo próprio agressor, depois de sua prisão.
“A Lei Maria da Penha é realmente excelente, mas faltam medidas efetivas para que ela atue na cidade, no local, na hora”, concluiu. Roseli, também vítima de violência doméstica, salientou a importância de quebrar a transmissão intergeracional da violência, em que padrões de comportamento abusivo são "aprendidos" e repetidos por filhos que cresceram em lares violentos.
“Achei fantástica essa discussão. Espero realmente que o Executivo ouça e os outros vereadores também, que as leis criadas no município sejam executadas”, finalizou.
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Salete Silva é jornalista profissional diplomada (ex-Estadão e Gazeta Mercantil) e editora do Viva! Serra Negra
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