//SALETE SILVA// Cultura machista estimula reincidência do agressor

Vitor Anghinoni“A mulher pensa duas vezes quando tem de sair de casa e ir à delegacia"


A violência doméstica é alvo de iniciativas educativas por parte da Ordem dos Advogados do Brasil de Serra Negra  (OAB/Serra Negra) desde o ano passado. Conter a reincidência dos crimes é um dos principais focos desse trabalho, que tem como desafio reverter a cultura machista enraizada na sociedade brasileira, baseada na superioridade masculina e subordinação feminina. 

“Esse é um ponto um pouco mais delicado, mas necessário de ser falado porque temos índices de reincidência muito altos”, explicou o advogado e presidente da OAB/Serra Negra, Vitor Anghinoni, no evento “Serra Negra discute a violência doméstica”, realizado no dia 14 de março, na Câmara Municipal de Serra Negra, e promovido pela Casa da Cultura Dalmo Dallari, Viva! Serra Negra e PT de Serra Negra. 

A proporção pode ser de 65 reincidentes a cada 100 agressores, calcula o presidente da OAB. Alguns estudos mostram taxas de até mais de 50% de reincidentes em relação ao total de agressores registrados em algumas localidades do país. 

Nas suas ações e iniciativas educativas em Serra Negra, a OAB tem buscado inspiração em programas bem sucedidos nessa luta para evitar a reincidência, como o Tempo de Despertar, programa pioneiro no país, da Promotoria de Justiça do Estado de São Paulo, com o objetivo de promover a conscientização e responsabilização dos agressores por meio de grupos reflexivos.

O Tempo de Despertar conseguiu reduzir em diversas regiões a reincidência para menos de 2%. A responsabilização, explica o advogado, é um dos pontos chaves para que o agressor tome consciência do crime cometido. A conscientização do agressor sobre sua responsabilidade no crime é essencial, porque muitas vezes ele se coloca como vítima da situação.

“Se sentindo vítima, quando recebe a ordem de medida protetiva ou quando é processado, reage com revanchismo, desejo de vingança de querer descontar o que está sofrendo”, afirmou Anghinoni, destacando que muitos deles argumentam que “ela mereceu”. Estimular essa reflexão é o objetivo dos grupos. 

Da delegacia ao acolhimento

Outra preocupação da OAB é contribuir para a articulação de políticas públicas no município em unidade com o Legislativo, Executivo e Judiciário locais, conforme prevê o Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, lançado pelo governo federal em fevereiro de 2026. 

Essa unidade entre os três Poderes, ele destaca, é importante para que a mulher não se perca no fluxo entre a denúncia, o acolhimento e o acompanhamento jurídico. Anghinoni propõe ainda uma parceria com a iniciativa privada para contribuir e financiar ações de apoio e construção de novos rumos para as vítimas de violência doméstica.  

“A mulher se perde, ou na verdade ela pensa duas vezes, quando tem de sair de casa, ir até a delegacia, procurar a OAB para ter alguma orientação e buscar ajuda na assistência social”, relatou. A OAB já realiza um trabalho de identificação de agressões quando a mulher procura orientação para o divórcio. Muitos casos de agressão foram identificados nessa triagem, mas falta um trabalho para que as mulheres façam as denúncias. 

A OAB já está estruturando também para 2026 ações educativas em parceria com o Judiciário em escolas da cidade para romper com o ciclo de violência entre gerações.

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Salete Silva é jornalista profissional diplomada (ex-Estadão e Gazeta Mercantil) e editora do Viva! Serra Negra

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