Serra Negra mostrou, com os resultados deste 1° turno das eleições de 2026, que não pretende sair do passado. Tanto a família que governa a cidade há mais de meio século como seus satélites, esse pessoal que vive das sobras do almoço do burgomestre, podem ficar tranquilos - terão ao menos mais meio século de total controle sobre corações e mentes serranas.
A esmagadora vitória dos candidatos da direita e extrema direita na cidade, replicando o ocorrido no Estado de São Paulo e no Brasil, demonstra que Serra Negra está perfeitamente integrada a estes novos tempos, que contraditoriamente, nos remetem a séculos atrás, quando se acreditava, entre outras idiotices, que a Terra era plana.
Cidade turística, com belas paisagens, ar puro, clima aprazível, Serra Negra poderia, se vivesse no século 21, ser exemplo de uma comunidade saudável, desenvolvida econômica e socialmente. Como, porém, se recusa a ingressar na contemporaneidade, por razões várias, é o que é, com a maioria da população com salários miseráveis, juventude sem perspectivas, vida cultural inexistente, problemas sérios nas áreas da saúde pública, habitação, mobilidade social, emprego... Enfim, pobre material e espiritualmente - e assim será por muitos e muitos anos, a depender de sua classe política (?) e empresarial (?).
A muralha humana formada pelo prefeito, seu vice, secretários, vereadores, políticos de oposição (desculpem, mas não resisto ao abominável kkkkk), abordando, domingo, os eleitores numa mal disfarçada boca de urna na maior seção eleitoral da cidade, a escola Jovino de Freitas, é retrato mais que perfeito de como as "elites" locais enxergam o povaréu: gado a ser tangido.
Dessa gente nada se espere. A não ser a cada dia um esforço maior em incutir na consciência coletiva que tudo na cidade está bem, que nada precisa mudar, que as coisas sempre foram assim, que trabalhar seis dias por semana ganhando pouco mais que o salário mínimo é o melhor dos mundos.
E que é proibido discordar dos poderosos, debater ideias novas, apontar problemas e propor soluções.
Afinal, o povo de Serra Negra é conservador e de direita, o que por si só permite explicar seu imobilismo.
Afinal, a cidade nunca saiu dos anos 1970, aqueles da paz dos cemitérios.
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Carlos Motta é jornalista profissional diplomado (ex-Estadão, Jornal da Tarde e Valor Econômico) e editor do Viva! Serra Negra

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