//CRÔNICA// Ar puro, sonolência, vida e morte



Carlos Motta


Dias depois de ter me mudado para Serra Negra comecei a sentir uma estranha sonolência durante o dia.

Não era cansaço, nem aquele mal estar generalizado que vem junto com um resfriado.

Era sono mesmo.

Adepto da "siesta", logo percebi que aquela vontade de fechar os olhos em seguida à sagrada soneca pós almoço não era normal.

Curioso, recorri ao meu mais sábio e disponível amigo, o Google.

Apertei algumas teclas e ele veio com a resposta para a minha dúvida cruel: meu organismo estava se adaptando a uma dieta generosa de oxigênio.

O ar de Serra Negra, fui percebendo, estava limpando mais de duas décadas de porcarias respiradas naquele inferno chamado São Paulo.

Com o tempo fui me acostumando ao ar puro das montanhas.

Sete anos se passaram desde que aportei por estas bandas.

O barulho dos passarinhos de manhã, a algazarra das maritacas à tarde, a vista do verde do terraço do meu apartamento, tudo isso se incorporou ao meu cotidiano.

Por essas é que venho sentindo uma tristeza enorme de um tempo para cá, que acompanha o medo de respirar com vontade, a plenos pulmões, o ar serrano.

Pode ser paranoia, bem sei.

Mas a cada dia, a cada notícia que tenho de escrever para este Viva! Serra Negra, mais se impregna em mim o temor de que junto com o oxigênio que me dá a vida eu esteja inspirando o vírus que pode me matar.

Pior: a cada dia, a cada notícia que leio nas dezenas de publicações que acompanho, mais me convenço que o ser humano embora seja capaz de superar qualquer dificuldade, tem em si próprio o seu pior inimigo.

É um paradoxo interessante: o ar que me permite viver carrega o vírus que traz a morte.

E o homem que se valeu da inteligência para criar a civilização e todos os seus avanços tem de duelar contra semelhantes que exaltam a estupidez como paradigma da vida em sociedade.

Coisa complicada, essa. Vá entender...

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