// NEGÓCIOS// Apesar da pandemia, loja física de roupas ainda é preferida, mas e-commerce cresce


 Fátima Fernandes


Quais são os legados que a pandemia do novo coronavírus deixa para o varejo de vestuário, um setor que movimenta perto de R$ 230 bilhões por ano?

Pesquisa realizada pelo IEMI (Instituto de Inteligência de Mercado) em todas as regiões do país dá algumas pistas sobre o impacto da covid-19 no comportamento dos consumidores.

Lojas físicas continuam sendo as preferidas para a compra de roupas e calçados, mesmo com a expansão do e-commerce.

Propósitos sociais das empresas e ações no campo da sustentabilidade serão bem mais observados a partir de agora para a escolha das marcas.

“O consumidor está sensibilizado com a perda de amigos, parentes, restrição pessoal, queda de renda. Isso provoca mudanças de valores e aspirações”, diz Marcelo Prado, diretor do IEMI.

Passado o período da pandemia, 53% dos consumidores consultados disseram que preferem lojas físicas para a compra de vestuário. Os shoppings centers são os preferidos por 56% deles.

Em relação a valores e preferências de consumo, 55% disseram que passaram a priorizar marcas e produtos realmente sustentáveis e com propósitos sociais comprovados (24%).

Ainda considerando o fator sustentabilidade, o IEMI perguntou para os consultados se uma peça que utiliza materiais recicláveis ou renováveis pode influenciar na decisão de compra.

78% deles disseram que, a partir de agora, essa condição passou a ser relevante ou muito relevante na hora da escolha de um produto.

A pesquisa também mostrou que os consumidores não estão tão dispostos a pagar mais por peças sustentáveis. Isto é, o preço continua tendo grande peso em suas decisões.

Para 56% das pessoas entrevistas, um produto sustentável deveria custar o mesmo que um não sustentável. Para 23%, poderia custar mais, e para 21%, deveria custar menos.

Quando perguntado se estaria disposto a trocar a marca preferida por outra com produto comprovadamente sustentável, 65% disseram que sim, mas o preço precisa ser o mesmo.

Para Prado, a pesquisa revela que o fechamento do comércio e as restrições impostas para o controle do novo coronavírus tiveram influência sobre o consumo de vestuário no país.

“E deverão continuar tendo desdobramentos sobre esse mercado por um período que, possivelmente, se estenderá para além da equalização do controle da crise sanitária”, diz.

O setor de vestuário foi um dos mais sofreram com a pandemia. Consumidores em casa e lojas fechadas derrubaram as vendas de roupas e calçados.

O volume de vendas do setor caiu quase 40% no primeiro semestre deste ano na comparação com igual período de 2019, de acordo com o IBGE.

Para a equipe do IEMI, a queda do volume de vendas em 2020 deve ser da ordem de 18% em relação ao ano passado.

O QUE ATRAI O CONSUMIDOR

A pesquisa do IEMI também colheu percepções dos consumidores sobre os principais atrativos de uma loja de roupas a partir de agora. São elas:

- oferta qualificada e diversificada de produtos;

- promoções, descontos, prazos de pagamento e serviços, com destaque para a oferta de crédito;

- adoção de procedimentos contra a propagação do novo coronavírus;

- soluções de canais integrados de vendas (loja física, e-commerce e redes sociais).

De acordo com o IEMI, o brasileiro compra roupas quatro vezes por ano, em média. A produção anual do país é da ordem de 6,3 bilhões peças e o consumo per capita é de R$ 1.100.

A pesquisa revelou que 72% dos entrevistados pretendem comprar peças do vestuário neste ano e que 47% deles pretendem fazer a aquisição pela internet.

O que mais motiva a utilização do e-commerce, ainda de acordo com o IEME, são os descontos e o frete grátis.

“A internet, para os consumidores, é sinônimo de preço baixo e conveniência”, diz Prado.

 Apesar de as lojas físicas serem as preferidas para a compra de roupas (53%), vale ressaltar, de acordo com Prado, que a compra de peças do vestuário pela internet não para de crescer.

“Em pesquisas anteriores, o percentual de consumidores que preferiam a compra virtual de roupas não chegava em 25% e hoje está em 47%.”

Este é um alerta importante para o lojista, de acordo com Prado.

“O lojista estava muito confortável atrás do balcão e preocupado com o ambiente da loja e o mix de produtos. O segredo do negócio era uma boa vitrine e uma boa localização.”

Agora, depois de enfrentar o período de lojas fechadas, diz ele, ficou claro que o lojista precisa ter alternativas de vendas tanto no caso de grandes redes como de um pequeno negócio.

“É um dos legados da crise: a importância da incorporação dos canais digitais como alternativa e conveniência para os consumidores.”

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Fátima Fernandes é jornalista especializada em economia, negócios e varejo e editora do site Varejo em Dia.

Reportagem originalmente publicada no Diário do Comércio.

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