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A realização da etapa de Serra Negra do L'Étape Brasil by Tour de France, no dia 28 de junho, foi considerada positiva por organizadores, atletas, prefeitura e setores do turismo, hotelaria, comércio e gastronomia, mas provocou forte insatisfação entre moradores e trabalhadores devido à falta de informação e ao bloqueio de ruas e rodovias. Embora a cidade soubesse desde setembro de 2025 que sediaria o evento, a população só foi informada poucos dias antes, sem planejamento para garantir o deslocamento de trabalhadores ou o atendimento de emergências médicas. Moradores relataram dificuldades para chegar ao trabalho, acessar hospitais e consultas, incluindo o caso de uma paciente com doença vascular grave que teve atendimento cancelado e remarcado para quase três semanas depois. A reportagem do Viva! Serra Negra questionou a prefeitura sobre a organização do evento e o grave acidente que feriu um ciclista após um motorista furar o bloqueio na Rodovia Octávio de Oliveira Santos, mas não obteve resposta.
Notícia completa
A estreia de Serra Negra no calendário do L'Étape Brasil by Tour de France, realizada no domingo, 28 de junho, atingiu as expectativas de organizadores, atletas – apesar de um deles ter sofrido um acidente grave, provocado por um motorista que furou o bloqueio na Rodovia Octávio de Oliveira Santos -, prefeitura, hoteleiros, comerciantes e donos de restaurantes e bares, que faturaram com o movimento turístico. Mas pegou a população de surpresa e prejudicou trabalhadores e moradores que precisaram de atendimento médico ou que ficaram proibidos de se locomover durante o período de interdição de ruas e estradas.
A cidade teve pelo menos nove meses para se preparar. Serra Negra foi anunciada como sede do L'Étape Brasil em setembro de 2025, mas os moradores de Serra Negra só ficaram sabendo do evento e da interdição de ruas e rodovias praticamente na semana do evento. O secretário de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Serra Negra, Juliano Belini, em fevereiro, comunicou a realização do evento aos integrantes do Conselho Municipal de Turismo na reunião bimestral de fevereiro. Desde então, no entanto, o órgão nunca mais se reuniu.
Trabalhadores tiveram de se virar para arrumar transporte e sair de casa para trabalhar na madrugada do domingo. Nenhuma alternativa foi apresentada aos trabalhadores para facilitar a vida de funcionários da rede hoteleira, lojas, restaurantes e lanchonetes. Somente na véspera, organizadores do evento usaram as redes sociais para alertar os moradores, e em especial aos trabalhadores, que se preparassem para sair antes das 6 horas para o trabalho. Trabalhadores autônomos incluindo motoristas de aplicativos também foram pegos de surpresa.
Moradores criticam
Nenhuma informação foi divulgada sobre como proceder em casos de emergência, como ambulâncias ou moradores que precisassem de atendimento em pronto socorro. Havia possibilidade de furar o bloqueio nesses casos? Comentários nas redes sociais revelaram a preocupação dos moradores.
“Achei um cúmulo esse evento, pois fecharam a cidade. Se alguém precisasse de ambulância no São Luís não teria como, a não ser se fosse pela pedreira e além do mais as pessoas que trabalham no domingo ficaram sem ônibus. Eu todos os domingos vou à casa da minha mãe para ajudar minha irmã e tive de ir a pé pois não tinha dinheiro para pagar Uber, uma sacanagem”, disse uma moradora.
Moradores que necessitaram de atendimento médico foram os mais prejudicados. Um motorista de aplicativo relata nas redes sociais a dificuldade para levar uma paciente até a Santa Casa Ana Cintra, em Amparo. Todos os acessos ao hospital estavam bloqueados.
O depoimento mais dramático foi o da moradora cuja mãe, portadora de uma doença vascular grave, teve cancelada na véspera do evento, a consulta médica, marcada para o domingo, 28 de junho, no Conisca, o Consórcio Intermunicipal de Saúde do Circuito das Águas. O evento foi a justificativa para o cancelamento da consulta, remarcada só para o dia 18 de julho.
“Minha mãe precisava da consulta porque os remédios que está tomando não estão fazendo efeito. Ela está com o pé necrosando e essa consulta foi desmarcada dois dias antes. Pergunto para a prefeitura onde fica a cidade da saúde porque agora é cidade do turismo. O povo de Serra Negra, a gente que não tem condições de pagar uma consulta, uma cirurgia, sendo que o SUS também é pago por nós, temos o nosso direito. Achei desnecessário desmarcar as consultas das pessoas que estavam agendadas hoje”, desabafou em vídeo compartilhado em suas redes sociais.
Procurada pela reportagem do Viva! Serra Negra, a assessoria de imprensa da prefeitura ignorou as questões encaminhadas sobre quando a prefeitura tomou ciência do evento, como se preparou para a sua realização, qual era a responsabilidade da prefeitura na organização, e de quem é a responsabilidade pelo grave acidente que feriu um ciclista, entre outras. Murillo Santos, organizador do evento no município, disse à reportagem que essas questões teriam de ser respondidas pela prefeitura.
Acidente grave
Um acidente grave ocorreu na Rodovia Octávio de Oliveira Santos, entre os quilômetros 48 e 50, no município de Socorro. Um motorista desrespeitou o bloqueio de trânsito. O condutor não teria habilitação para conduzir o veículo. A vítima foi atendida pela equipe do Samu e encaminhada à Santa Casa de Socorro.
Nas redes sociais um ciclista se pronunciou. “Triste. Acidente feio durante a prova com a estrada fechada. Decidimos por encerrar a prova com 80 km e terminamos juntos como uma forma de protesto. Arranquei o chip antes de finalizar. Vai ser DNF [sigla em inglês para Did Not Finish, que significa "Não Terminou"]. Nenhuma vida vale uma medalha de lata. Espero que o atleta esteja bem.
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Salete Silva é jornalista profissional diplomada (ex-Estadão e Gazeta Mercantil) e editora do Viva! Serra Negra

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