O governo do Irã é alinhado à Rússia, China, Índia e Brasil no cenário geopolítico global, ajudando a tentar minimizar a grande influência ocidental liderada pelos EUA. Exerce um papel político importante na região, se contrapondo a Israel e tentando dar respaldo a grupos palestino.
Porém, o regime teocrático xiita é um horror. Centrado em convenções ortodoxas, é um atraso nos costumes e tem se desgastado há tempos. Os aiatolás não aceitam que a sociedade não tolera mais esse conservadorismo religioso, onde Damares Alves se encaixaria à perfeição.
A atual onda de protestos, que tende a derrubar o regime, começou no fim de dezembro, desencadeada pela insatisfação com a economia debilitada e uma crise cambial sem precedentes – a moeda local, o rial, despencou para 1,1 milhão para cada dólar.
O país tem inflação de 40%, dificultando o acesso da população a produtos básicos, como carne, arroz e até combustível, que já foi o mais barato do mundo – o Irã responde por 10% das reservas globais de petróleo, o que atrai mais pressões externas.
Em grande parte, a crise econômica é fruto das sanções dos EUA e da Europa por causa da disposição iraniana na área nuclear.
Há, ainda, esforços de Israel em acabar com o governo xiita e analistas não descartam a possibilidade de militares estarem incentivando os manifestantes para assumirem o poder.
Não se sabe ao certo se o Irã passa pelo mesmo processo impulsionado pela extrema-direita global, como ocorreu com Líbia, Egito, Turquia e a tentativa no Brasil de 2013, nem se sabe como tudo isso acabará.
Mas não fosse uma predisposição contra o regime ditatorial dos aiatolás, talvez houvesse maior tolerância com a crise econômica.
A classe média iraniana é vista como a mais culta e intelectual da região e se manifesta oprimida há décadas, mas desde há dois anos tem explicitado com mais veemência esse descontentamento.
O problema é que o futuro do Irã, que importa US$ 2,5 bilhões em produtos brasileiros, não é promissor. Se de fato o regime cair, um governo trumpista, militar ou a volta da família Pahlavi são más opções.
Fernando Pesciotta é jornalista e consultor em comunicação. Contato: fernandopaulopesciotta@gmail.com


Comentários
Postar um comentário
Os comentários são bem-vindos. Todos serão moderados. E não serão publicados os que estimulem o preconceito de qualquer espécie, ofendam, injuriem ou difamem quem quer que seja, contenham acusações improcedentes, preguem o ódio ou a violência.