//CARLOS MOTTA// A fonte da discórdia



Uma postagem no grupo do Facebook "Fotos Antigas e Novas de Serra Negra" sobre a cópia da Fontana di Trevi que está sendo construída na rua atrás do Paço Municipal mostra que a população está dividida em relação à obra, considerada pela prefeitura uma das mais importantes para aumentar a vinda de turistas à cidade.

A cópia do monumento romano está sendo feita com verba do Dadetur (Departamento de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios Turísticos), órgão da Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo. Vão ser gastos nela cerca de R$ 1,3 milhão - dinheiro público, portanto nosso, cidadãos paulistas.

Nos comentários sobre a postagem, vários serranos disseram que gostariam que essa dinheirama fosse gasta em outras coisas:

"Enquanto isso [se constrói a réplica da Fontana di Trevi] a Fonte São Luiz, na qual se gastou mais de meio milhão em reformas não tem água, que continua sendo desviada das nascentes para atender algumas casas", disse um internauta, complementado por outro: "Enquanto isso o Hospital está um lixo, camas do tempo do onça. Os turistas veem essa obra linda, maravilhosa, precisam ir no Pronto Socorro e encontram aquele lixo."

Um terceiro pediu outro destino para a verba:

"Acho que o prefeito tinha que dar mais atenção nas ruas que ainda não possui asfalto, os moradores sofrem com as chuvas, e somos nós moradores que pagamos os impostos, essa monstruosa fonte não deveria ser prioridade."

Um dos moradores que defendeu a obra recebeu uma resposta imediata:

"As pessoas que criticam não têm ideia do orgulho dos imigrantes italianos de Serra Negra em ter um pedaço da Itália em nossa cidade", disse. 

"Deveríamos é ter orgulho de ter um hospital com menos deficiência", ouviu em na sequência.

Outra moradora da cidade deu detalhes sobre a construção:

"Passei algumas vezes por lá antes de fecharem com tapume e vi de perto. Toda a frente, colunas e adereços são esculturas de isopor, coberto com uma nata de cimento. Uma fantasia, uma obra de faz de conta, uma alegoria Será que dura pelo menos até a próxima eleição?"

Sua manifestação recebeu apoio:

"Não se preocupem, após uns anos começa a estragar, fazem como a fonte em frente a prefeitura ...fazem outra! Eu posso não ter bom gosto, mas acho uma cafonice, prefiro coisa mais atual, moderna!"

A Fontana di Trevi original, segundo o Wikipedia, "é a maior (cerca de 26 metros de altura e 20 metros de largura) e mais ambiciosa construção de fontes barrocas da Itália e está localizada no rione Trevi, em Roma. A fonte está encostada na fachada do Palazzo Poli."

O site "Tudo sobre Roma" ensina que "a origem da fonte remonta ao ano 19 a.C., época em que a Fontana constituía o final do aqueduto Aqua Virgo. A primeira fonte foi construída durante o Renascimento, sob as ordens do papa Nicolau V."

Também informa que o aspecto final da Fontana di Trevi data de 1762 quando, depois de vários anos de obras promovidas por Nicola Salvi, foi finalizada por Giuseppe Pannini.

E, como curiosidade, explica que o nome de Trevi deriva de Tre Vie (três vias), já que a fonte era o ponto de encontro de três ruas.

Como se vê, os romanos souberam preservar a sua história. 

Serra Negra, ao contrário, derrubou inúmeros marcos arquitetônicos nas últimas décadas, apagando o seu rico passado. Se tivesse preservado essas construções não precisaria erguer no Centro essa cópia, sob o pretexto de homenagear os italianos que ajudaram no desenvolvimento da cidade. 

Melhor homenagem a eles teria sido deixar aos olhos de todos o legado de seu trabalho, representado por imóveis marcantes de vidas que alicerçaram a bela Serra Negra de hoje.

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Carlos Motta é jornalista profissional diplomado (ex-Estadão, Jornal da Tarde e Valor Econômico) e editor do Viva! Serra Negra










Comentários

  1. Pão e circo continua sendo uma maneira eficiente não de governar, mas vendar os olhos dos que querem continuar cegos a respeito das reais necessidades das populações das pequenas, médias e grandes cidades do país.

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  2. A antiga fonte fazia uma homenagem a todos os imigrantes, e não somente os italianos. O nome: Fonte dos Imigrantes.

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  3. Concordo plenamente em não gastar dinheiro nosso com uma réplica

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  4. Realmente uma obra bonita para a cidade, mas não creio que será ela mais um motivo para atrair turistas. E, seriam os turistas mais importantes que nós, próprios moradores da cidade? P q não dar jus ao lema “Cidade da Saúde “ e investir em coisas nas quais moradores e turistas poderiam explorar juntos ? Meu bairro tem muitos turistas caminhando, andando de bicicleta e não há segurança alguma! Não vemos mais os idosos caminharem tranquilamente pelas ruas que agora são tomadas por carros passando em alta velocidade. Não há lombadas e muito menos multa para proprietário que não mantém a calçada “caminhável “! Jogam entulho discaradamente pois são amigos de pessoas que dão o famoso “jeitinho brasileiro “ ! Não há fiscalização alguma com relação ao barulho produzido por estabelecimento que não cumpre lei do silêncio e horário de funcionamento estabelecido no alvará de funcionamento.
    O Centro da cidade melhorou muito, mas é preciso lembrar de que há moradores e turistas além das lojas centrais!

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  5. Parabéns pelo artigo. Não podemos engolir mais um grande disparate, quando o hospital vive precariamente. Se nossos pais, avós e bisavós ,um dia, puderam usufruir, assim como nós ,uma grande conquista para a saúde do povo serrano, na construção do hospital, salvando vidas, agora, temos dinheiro público investido sem uma consulta popular. Não é uma falsa fonte que garante a nossa identidade , mas sim a qualidade de vida , que no passado nossos ancestrais lutaram por isso.

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  6. Muito brega, muito descabido… não combina com a beleza bucólica de Serra Negra. Da-lhe derrubar natureza para fazer réplica tosca de uma das maiores obras barrocas já concebidas, cuja adequação e sua beleza pertencem sim à cidade em que foi produzida, ou seja, Roma. Cafonice pura.

    Para mim, o correto seria valorizar o turismo de natureza, preservar as matas, bolar circuitos, parques, mais atrações de lazer, para que os turistas permaneçam mais tempo hospedados nessa cidade tão linda. Está na hora de aproveitar o que Deus deu. Se o prefeito curte tanto os monumentos italianos, que vá desfruta-los na Itália mesmo.

    Pelo que li em posts anteriores, objetiva-se fazer uma “Mini Italia”. O que mais será feito? Coliseuzinho? Canaizinhos de Veneza com gôndolas em água mineral? Duominho de Milão? Por favor, gente!!!

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