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| Salete Silva é jornalista profissional diplomada e editora do Viva! Serra Negra |
E foi assim até um dia de Carnaval, no final dos anos 1970, quando pela primeira vez experimentei na pele junto com um grupo de amigas adolescentes o terror do assédio e ataque sexual de garotos também da nossa idade no meio da rua quando nos dirigíamos a um baile de Carnaval tradicional no ABC paulista. Foram momentos de terror, mas que decidimos guardar segredo com medo de que fossemos repreendidas por nossos pais.
O sentimento no abuso e violência de gênero, além de destruir a autoestima, impõe medo e culpa. Em geral, nos calamos. Decidi colocar a boca no trombone e abracei o jornalismo, uma profissão que é instrumento de transformação social. O Dia Internacional da Mulher nunca mais foi um dia de comemoração. É um dia de luta.
Mais de 40 anos se passaram e a situação não mudou, ao contrário. Nos últimos dez anos, o discurso machista deu voz a segmentos políticos que compactuam com a diferenciação de gênero e que resistem à mudança para uma sociedade menos desigual e misógina. No ano passado, mais de 1.500 mulheres brasileiras foram assassinadas por seus maridos, companheiros, namorados. Duas mulheres serranas em menos de um ano foram vítimas de feminicídio.
O Estado de São Paulo lidera esse ranking nacional com 266 feminicídios em 2025, o maior número desde o início da série histórica em 2018, aumento de 96,4% em relação a 2021. Ainda assim o governador Tarcísio de Freitas reduziu em 54% o orçamento da Secretaria de Políticas para a Mulher para 2026.
A legislação está ultrapassada, precisa ser revista para proteger as mulheres de seus agressores e os orçamentos municipais, estaduais e federal não preveem recursos suficientes para o combate ao feminicídio. A população masculina resiste a se engajar nessa luta contra crimes praticados por homens.
Em casa, as famílias não sabem como educar as novas gerações e evitar que os meninos tenham acesso na internet aos grupos Red Pill (pílula vermelha), comunidades online compostas predominantemente por homens que proliferam na internet com o objetivo de disseminar ideologias machistas, misóginas e violentas de ódio contra mulheres.
Que sofrimento acompanhar o caso do estupro da adolescente menor de idade no Rio de Janeiro por um grupo de meninos, um dos quais filho de secretário de governo do Estado e com antecedentes segundo relatos divulgados. Trouxe de volta a lembrança daquele fatídico Carnaval que nem de longe foi violento quanto o estupro no RJ. Mas violento o suficiente para entender que ser mulher é estar alerta diariamente para evitar olhares, comentários, atitudes machistas, quando não violentas e fatídicas.
Engajar a sociedade de Serra Negra nessa luta nacional contra a violência doméstica é fundamental. Como jornalista e presidente do PT Serra Negra convido os serranos, em especial os homens, a participar de uma conversa sobre violência doméstica, no sábado, 14 de março, na Câmara Municipal de Serra Negra com a participação do juiz de direito da 2ª Vara Judicial da Comarca de Serra Negra, Carlos Eduardo Silos de Araújo; da secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Daniele Brandini Pachioni Siloto; do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, subseção Serra Negra, Vitor Anghinoni Nascimento; e da presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB Serra Negra, Paula Maria Oliveira.


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