//SALETE SILVA// 8 de Março não é comemoração. É luta!




Salete Silva é jornalista
profissional diplomada e
editora do Viva! Serra Negra
O Dia Internacional da Mulher nunca me pareceu comemoração. Comemorar o quê, já perguntava na adolescência. Por que os homens não precisam comemorar? Já fazia esse questionamento na escola quando esse tema era tratado. Naquela época ainda em plena Ditadura Militar ninguém falava sobre machismo, violência doméstica, diferenciação de gênero no mercado de trabalho nem muito menos sobre feminicídio. Tudo eram flores, todos os anos.

E foi assim até um dia de Carnaval, no final dos anos 1970, quando pela primeira vez experimentei na pele junto com um grupo de amigas adolescentes o terror do assédio e ataque sexual de garotos também da nossa idade no meio da rua quando nos dirigíamos a um baile de Carnaval tradicional no ABC paulista. Foram momentos de terror, mas que decidimos guardar segredo com medo de que fossemos repreendidas por nossos pais. 

O sentimento no abuso e violência de gênero, além de destruir a autoestima, impõe medo e culpa. Em geral, nos calamos. Decidi colocar a boca no trombone e abracei o jornalismo, uma profissão que é instrumento de transformação social. O Dia Internacional da Mulher nunca mais foi um dia de comemoração. É um dia de luta. 

Mais de 40 anos se passaram e a situação não mudou, ao contrário. Nos últimos dez anos, o discurso machista deu voz a segmentos políticos que compactuam com a diferenciação de gênero e que resistem à mudança para uma sociedade menos desigual e misógina. No ano passado, mais de 1.500 mulheres brasileiras foram assassinadas por seus maridos, companheiros, namorados. Duas mulheres serranas em menos de um ano foram vítimas de feminicídio.

O Estado de São Paulo lidera esse ranking nacional com 266 feminicídios em 2025, o maior número desde o início da série histórica em 2018, aumento de 96,4% em relação a 2021. Ainda assim o governador Tarcísio de Freitas reduziu em 54% o orçamento da Secretaria de Políticas para a Mulher para 2026.

A legislação está ultrapassada, precisa ser revista para proteger as mulheres de seus agressores e os orçamentos municipais, estaduais e federal não preveem recursos suficientes para o combate ao feminicídio. A população masculina resiste a se engajar nessa luta contra crimes praticados por homens. 

Em casa, as famílias não sabem como educar as novas gerações e evitar que os meninos tenham acesso na internet aos grupos Red Pill (pílula vermelha), comunidades online compostas predominantemente por homens que proliferam na internet com o objetivo de disseminar ideologias machistas, misóginas e violentas de ódio contra mulheres. 

Que sofrimento acompanhar o caso do estupro da adolescente menor de idade no Rio de Janeiro por um grupo de meninos, um dos quais filho de secretário de governo do Estado e com antecedentes segundo relatos divulgados. Trouxe de volta a lembrança daquele fatídico Carnaval que nem de longe foi violento quanto o estupro no RJ. Mas violento o suficiente para entender que ser mulher é estar alerta diariamente para evitar olhares, comentários, atitudes machistas, quando não violentas e fatídicas.

Engajar a sociedade de Serra Negra nessa luta nacional contra a violência doméstica é fundamental. Como jornalista e presidente do PT Serra Negra convido os serranos, em especial os homens, a participar de uma conversa sobre violência doméstica, no sábado, 14 de março, na Câmara Municipal de Serra Negra com a participação do juiz de direito da 2ª Vara Judicial da Comarca de Serra Negra, Carlos Eduardo Silos de Araújo; da secretária municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, Daniele Brandini Pachioni Siloto; do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, subseção Serra Negra, Vitor Anghinoni Nascimento; e da presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB Serra Negra, Paula Maria Oliveira.

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